Pela primeira vez em mais de um século de medições, estudos internacionais apontam uma desaceleração nos índices médios de QI entre os mais jovens. O fenômeno, observado em levantamentos realizados na Europa, nos Estados Unidos e em outras economias desenvolvidas, levou parte da imprensa a uma conclusão apressada: a Geração Z estaria se tornando menos inteligente do que as gerações anteriores.
A interpretação, porém, ignora uma transformação profunda que vem ocorrendo na forma como a inteligência é compreendida pela ciência, pela educação e pelo mercado de trabalho.
Durante mais de 120 anos, a principal ferramenta utilizada para medir inteligência foi o teste de quociente de inteligência, o famoso QI. Criado em 1905 pelo psicólogo francês Alfred Binet, o instrumento foi desenvolvido para avaliar habilidades relacionadas principalmente ao raciocínio lógico-matemático e à linguagem. Ao longo do século XX, tornou-se a principal referência para medir capacidades cognitivas e influenciou sistemas educacionais, processos seletivos e até políticas públicas em diversos países.
O problema é que o teste nunca pretendeu medir toda a complexidade da inteligência humana. Ele avalia apenas determinadas competências cognitivas e não contempla inúmeras habilidades que influenciam o desempenho acadêmico, profissional e social dos indivíduos.
Essa limitação começou a ser questionada de forma mais contundente em 1983, quando o psicólogo Howard Gardner, da Universidade Harvard, publicou a obra Frames of Mind. Resultado de anos de pesquisa, a teoria das inteligências múltiplas propôs uma ruptura com o modelo tradicional ao defender que os seres humanos possuem pelo menos oito formas distintas de inteligência: linguística, lógico-matemática, espacial, musical, corporal-cinestésica, naturalista, interpessoal e intrapessoal.
A tese foi posteriormente reforçada pelos avanços da neurociência. Se no início do século XX predominava a crença de que a inteligência era praticamente imutável, hoje a ciência reconhece a capacidade de adaptação do cérebro humano por meio da neuroplasticidade, permitindo o desenvolvimento de habilidades ao longo de toda a vida.
Nesse contexto, surgiram ferramentas capazes de avaliar competências além daquelas tradicionalmente mensuradas pelos testes de QI. Uma das mais conhecidas é o MIDAS (Multiple Intelligences Developmental Assessment Scales), desenvolvido pelo pesquisador norte-americano Branton Shearer, da Universidade de Ohio e colaborador dos estudos de Gardner. O instrumento avalia oito inteligências e 25 habilidades associadas, oferecendo um retrato mais amplo das potencialidades individuais.
No Brasil, a metodologia foi adaptada pelo professor Roberto Corazza sob o nome A.M.I. — Avaliação das Múltiplas Inteligências. Após quase uma década de estudos, validações e aplicações em instituições educacionais, a ferramenta passou a ser utilizada para auxiliar escolas na identificação de talentos e competências frequentemente invisíveis aos modelos tradicionais de avaliação.
Os resultados desse novo olhar sobre a inteligência encontram respaldo também no mercado de trabalho. Uma pesquisa realizada pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), em parceria com a consultoria McKinsey, identificou que aproximadamente 70% das maiores empresas globais já incorporaram critérios relacionados a habilidades socioemocionais nos seus processos de contratação e promoção profissional.
Empresas como Itaú, Nubank, Google, Amazon, Microsoft, Meta, Santander e Coca-Cola figuram entre as organizações que passaram a valorizar competências como comunicação, colaboração, adaptabilidade, criatividade, liderança e inteligência emocional em níveis equivalentes ou superiores aos conhecimentos técnicos específicos.
O levantamento aponta ainda que profissionais capazes de trabalhar em equipe, resolver problemas complexos, comunicar ideias com clareza e lidar com mudanças constantes apresentam desempenho superior em ambientes organizacionais cada vez mais impactados pela automação e pela inteligência artificial.
Os números ajudam a compreender uma aparente contradição. Se os jovens da Geração Z apresentam desempenho inferior em alguns indicadores tradicionais de QI, como explicar o crescente número de empreendedores, criadores de conteúdo, desenvolvedores de tecnologia e fundadores de startups que alcançam sucesso antes dos 30 anos?
A resposta pode estar justamente nas competências que os testes convencionais não conseguem medir adequadamente.
Trata-se de uma geração que cresceu conectada. Antes mesmo de concluir o ensino médio, muitos jovens já haviam interagido com pessoas de diferentes países, aprendido a produzir conteúdo para audiências globais, administrado comunidades digitais e desenvolvido repertórios de comunicação em ambientes altamente competitivos.
Essas experiências contribuem para o fortalecimento de inteligências interpessoais, intrapessoais e espaciais, áreas cada vez mais valorizadas por organizações que precisam inovar em ritmo acelerado.
Ao mesmo tempo, a expansão da inteligência artificial altera profundamente o valor relativo das competências humanas. Conhecimentos técnicos podem ser pesquisados em segundos. Cálculos complexos são realizados instantaneamente por sistemas automatizados. Informações estão disponíveis em abundância.
O diferencial competitivo passa a residir em capacidades que as máquinas ainda não reproduzem plenamente: empatia, criatividade, liderança, julgamento ético, negociação, visão estratégica e compreensão das relações humanas.
Diante desse cenário, talvez a pergunta correta não seja se a Geração Z é mais ou menos inteligente do que as gerações anteriores. A questão central é se continuamos utilizando instrumentos concebidos para uma realidade de 1905 para avaliar jovens que vivem em um mundo radicalmente diferente.
A educação enfrenta um desafio semelhante. Persistir exclusivamente em métricas construídas para medir desempenho acadêmico tradicional pode significar ignorar talentos essenciais para a economia do século XXI. O mercado já percebeu essa mudança. Grandes empresas já adaptaram seus processos. Muitas escolas começam a fazer o mesmo.
O verdadeiro debate não está na suposta perda de inteligência da nova geração. Está na necessidade de reconhecer que a inteligência humana é muito mais ampla, diversa e dinâmica do que qualquer número isolado pode representar.
*Roberto Corazza é professor, especialista em Múltiplas Inteligências e idealizador do projeto AMI — Avaliação das Múltiplas Inteligências - no Brasil.

