A trajetória recente da Comil é uma daquelas viradas que merecem ser contadas com um pouco de fôlego. Em menos de uma década, a fabricante de ônibus sediada em Erechim (RS) saiu de uma recuperação judicial para ocupar o posto de segunda maior produtora de ônibus rodoviários do Brasil, com presença em 30 países e faturamento de R$ 1,2 bilhão em 2025.
Mas, para chegar até aqui, foi preciso enfrentar o que talvez tenha sido o maior teste de resiliência da empresa em seus 40 anos de história, completados neste mês de janeiro.
O início da tempestade
O cenário começou a se tornar desfavorável em 2013, quando protestos nas grandes cidades brasileiras derrubaram a confiança nos sistemas de transporte coletivo e congelaram investimentos em mobilidade urbana. A Comil, que havia acabado de inaugurar uma nova fábrica em São Paulo com foco na produção de ônibus urbanos, viu a demanda despencar.
“A partir dali, o setor entrou em colapso. Em 2011, o Brasil produzia cerca de 35 mil ônibus por ano. Depois de 2013, essa produção caiu 65%”, relembra Carlo Corradi, diretor financeiro da empresa. “Na época, chegamos a fabricar sete veículos urbanos por dia. A estrutura estava montada para um mercado que simplesmente deixou de existir”.
Entre 2016 e 2017, o caixa curto e a falta de resposta nas negociações extrajudiciais com bancos colocaram a sobrevivência da empresa em xeque. A recuperação judicial tornou-se a única alternativa.
Localizada na cidade de Erechim, a fábrica da Comil possui uma estrutura de 150 mil metros quadradosUm processo para retomar o fôlego
O pedido de recuperação foi protocolado em setembro de 2016, em uma parceria entre os escritórios Advocacia Dárcio Vieira Marques, de Passo Fundo, e MSC Advogados, de Porto Alegre.
Sobre a condução do processo judicial, o advogado Dárcio Vieira Marques ressalta que o envolvimento dos administradores da empresa foi essencial desde o primeiro momento. “Eles precisaram ter força de vontade e usar a criatividade para nos ajudar a negociar e também fazer com que a empresa voltasse a produzir. E foram muito eficientes: buscaram novos produtos, foram à luta”, afirma o advogado.
O processo de reestruturação do passivo e das obrigações ficou a cargo do escritório MSC Advogados, responsável pelas negociações com credores. Para Silvio Luciano Santos, sócio do escritório, a virada passou por uma guinada na forma de gerir o negócio. “Os gestores compreenderam que a sobrevivência da empresa exigia mais do que esforço: era preciso profissionalizar a gestão, rever processos internos e adotar uma postura de governança mais robusta. O plano de reestruturação não foi apenas aprovado, mas desenhado com realismo e foco em viabilidade de longo prazo”, explica Santos.
Recuperação concluída e superada
O encerramento oficial do processo veio após o cumprimento integral do plano aprovado em assembleia. Hoje, a Comil opera com 2,2 mil colaboradores, quase o triplo do quadro reduzido durante a crise, e produz, em média, nove ônibus por dia, com 30% da receita vinda de exportações para a América Latina. Agora, prepara um grande investimento na área de tecnologia e mira a ampliação do seu espaço físico.
“Fazendo uma analogia, a recuperação judicial é o último remédio para qualquer empresa. É amargo, indigesto e não é simples. Exige muito comprometimento, mas se bem usado, pode, sim, proporcionar uma recuperação verdadeira”, reflete Corradi.
A empresa, que já produziu até 15 ônibus por dia no auge da era dos BRTs, agora aposta em um mix de produtos com maior valor agregado e foco em rodoviários, o que exige mais tempo de produção, mas também mais margem e estabilidade.
Para Silvio Luciano Santos, a história da Comil é uma prova de que a recuperação judicial pode ser uma ferramenta de transformação real, desde que usada com critério e estratégia: “Nem todas as companhias têm indicação para usar este instrumento. No entanto, quando bem recomendado e utilizado, ele permite a manutenção da função social das empresas: preservar empregos e renda e movimentar a economia”.

