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Economia

Foto: Freepik/@jcomp

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Todo início de ano repete um roteiro conhecido para grande parte dos brasileiros: contas acumuladas, orçamento apertado e a sensação de que o dinheiro “simplesmente sumiu”. Janeiro, fevereiro e março são, historicamente, os meses mais difíceis financeiramente para as famílias — e isso está longe de ser apenas uma percepção subjetiva.

Segundo o professor Wagner Pagliato, coordenador do curso de Ciências Contábeis e do Núcleo de Apoio Fiscal (NAF) da Universidade Cidade de São Paulo (Unicid), o problema é, acima de tudo, matemático. “Há uma concentração de despesas obrigatórias em um curto período, enquanto a renda permanece praticamente a mesma. O resultado é simples: as despesas superam a renda disponível”, explica.

Entre os principais fatores estão o pagamento de IPVA, IPTU, matrícula e material escolar, seguros, taxas anuais e reajustes de preços, que chegam quase simultaneamente. Além disso, dezembro costuma ser um mês de gastos elevados, o que impede que o orçamento se recomponha a tempo.

Embora exista também um componente psicológico e cultural, Pagliato afirma que a raiz do problema está na gestão financeira. “Na maioria dos casos, não é exatamente falta de dinheiro, mas falta de planejamento. Mesmo famílias com renda estável passam aperto porque não se organizam para despesas previsíveis”, avalia.

Um dos pontos centrais, segundo o especialista, é o uso inadequado do 13º salário. “O 13º poderia funcionar como um amortecedor financeiro para o início do ano, mas costuma ser tratado como renda extra para consumo imediato, com viagens, festas e presentes”, diz.

O impacto desses gastos é ampliado pelo parcelamento. “O problema não é apenas o valor gasto em si, mas o efeito prolongado das parcelas, que continuam pesando no orçamento nos meses seguintes”, destaca.

Pagliato também chama atenção para a tendência de subestimar despesas previsíveis, especialmente impostos. “IPVA e IPTU representam valores elevados e concentrados. Muitas pessoas sabem que vão pagar, mas não dimensionam corretamente o impacto no orçamento”, afirma.

Outro erro comum é acreditar que o problema se resume a janeiro. “Existe uma falsa sensação de que o aperto acaba no primeiro mês do ano, quando, na prática, ele costuma se estender por todo o primeiro trimestre”, alerta.

Para evitar esse ciclo, o professor resume a regra mais simples: tratar despesas previsíveis como contas mensais. Entre as atitudes práticas que fariam maior diferença estão reservar parte do 13º salário para impostos e despesas escolares, criar um fundo anual com depósitos mensais ao longo do ano e evitar parcelamentos longos no fim do ano. “Planejamento financeiro não é sobre ganhar mais, é sobre antecipar o que já se sabe que vai acontecer”, conclui.