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Opinião

Wellington Magalhães é Juiz de Direito e Diretor Adjunto da Escola Superior da Magistratura Tocantinense

Wellington Magalhães é Juiz de Direito e Diretor Adjunto da Escola Superior da Magistratura Tocantinense Foto: Divulgação

Foto: Divulgação Wellington Magalhães é Juiz de Direito e Diretor Adjunto da Escola Superior da Magistratura Tocantinense Wellington Magalhães é Juiz de Direito e Diretor Adjunto da Escola Superior da Magistratura Tocantinense

Há algo de simbolicamente poderoso em pensar a história humana enquanto se está suspenso no ar, a milhares de metros do chão. Após nove horas de voo imerso na obra científica e literária Sapiens: A Brief History of Humankind, de Yuval Noah Harari, algumas anotações feitas quase de forma despretensiosa começaram a ganhar densidade durante a escala em Guarulhos, enquanto aguardava conexão para Palmas/TO. O que inicialmente eram fragmentos de reflexão transformou-se em um pequeno laboratório mental sobre o nosso tempo: uma tentativa de compreender o lugar da inteligência artificial generativa dentro da longa narrativa da evolução humana.

Harari descreve a ascensão do Homo sapiens como resultado de uma revolução cognitiva singular: a capacidade de criar narrativas compartilhadas. Foi essa habilidade simbólica que permitiu que milhões de indivíduos cooperassem em torno de ideias invisíveis - deuses, leis, Estados, mercados, direitos, etc. Não se tratava apenas de linguagem, mas de imaginação social organizada. Foi assim que surgiram as instituições que estruturam a vida coletiva e que, ainda hoje, sustentam sistemas políticos, jurídicos e econômicos complexos.

A chamada revolução agrícola, embora frequentemente celebrada como progresso inevitável, inaugurou também um período de paradoxos. A domesticação das plantas e dos animais ampliou a produção de alimentos, mas também introduziu desigualdades, hierarquias rígidas e pressões ecológicas que moldariam os milênios seguintes. Em outras palavras, cada salto civilizatório trouxe consigo novas ferramentas - e novos dilemas. A história humana parece avançar sempre nesse delicado equilíbrio entre potência e risco.

Talvez seja justamente por isso que o debate sobre inteligência artificial desperte tantas inquietações. Se a revolução cognitiva ampliou nossa capacidade de imaginar o mundo, a inteligência artificial generativa parece inaugurar um estágio curioso: ferramentas capazes de participar do próprio processo de produção de ideias. A pergunta que emerge não é apenas tecnológica, mas profundamente antropológica: até que ponto delegaremos à máquina aquilo que, até então, definia a nossa singularidade cognitiva?

O verdadeiro desafio da era da IA não está em resistir à tecnologia, mas em preservar aquilo que nos tornou humanos ao longo dessa trajetória: curiosidade radical, concentração profunda e inspiração própria. Integrar a inteligência artificial sem abrir mão do hiperfoco intelectual talvez seja a nova disciplina da nossa época. Afinal, ferramentas sempre ampliaram nossas capacidades - o risco começa quando esquecemos que elas existem para servir ao pensamento humano, e não para substituí-lo. Em última análise, o futuro da inteligência artificial dependerá menos da potência dos algoritmos e mais da maturidade cognitiva de quem os utiliza.

*Wellington Magalhães é Juiz de Direito e Diretor Adjunto da Escola Superior da Magistratura Tocantinense