Escrevo essa crônica hoje porque a filha de uma grande amiga finalmente ficou menstruada. A notícia veio com uma crise de choro e uma grande tristeza que não consegui entender, porque esse evento, no meu caso, veio cheio de festa e comemoração.
Desde muito cedo, como menina, via os absorventes da minha mãe, perguntava para quê aquilo servia e, confesso, várias vezes coloquei um colado na calcinha e saí andando pela casa, me sentindo mais velha e madura do que eu era.
Quando a menstruação de fato chegou, na virada dos meus 11 para 12 anos, entendi que que não era só colocar uma almofadinha na calcinha. A menstruação vinha também com a cólica e a constante preocupação de olhar para a parte de trás da calça jeans para ter certeza de que aquele negócio não estava vazando. Só que nunca questionei por que ficava menstruada. Para mim era uma etapa normal da vida.
Inconveniente? Muitas vezes, sim. Mas ao longo do tempo tive acesso a outros recursos que facilitam a vida, como o absorvente interno, a pílula anticoncepcional, e, hoje em dia, até coletor menstrual, que não agride o meio ambiente.
Mas, voltando ao caso da filha da minha amiga, comecei a pesquisar o porquê de meninas tão novas terem reações extremas ao tema antes mesmo da menarca (primeira menstruação).
Cheguei à conclusão de que temos, pelo menos, duas grandes origens para o fenômeno.
A primeira é a própria geração de pais (mães, no caso), que reclamam, na frente das suas filhas, sobre as mazelas da menstruação. Além das experiências individuais com os sintomas de TPM, que variam muito de mulher para mulher, temos um histórico que coloca mais carga negativa na questão: durante séculos a menstruação era vista como algo impuro e amaldiçoado.
Na prática isso significava isolamento, improviso e silêncio.
O absorvente íntimo “Modess” só chegou ao Brasil na década de 1930, seguido depois pelos absorventes internos, como OB e Tampax, que eram cercados de mitos sobre perda da virgindade.
Desde então, o uso de eufemismos como “estar de chico”, “regras” ou “naqueles dias” serviu ainda mais para tornar invisível um fenômeno fisiológico natural.
Até nas escolas o tema era (ainda é) negligenciado. A educação sexual se preocupa basicamente em como prevenir a gravidez, e não em entender o funcionamento do próprio corpo.
É aqui que entra a segunda parte do fenômeno, e ela se chama “pobreza menstrual", ou seja, a falta de acesso a produtos de higiene básica para esse período. Isso inclui não apenas absorventes íntimos, mas a falta de banheiros e de papel higiênico nas casas e escolas públicas, e até mesmo água para se lavar. A falta de dignidade leva ao isolamento e à ausência.
Ou seja, meninas em pobreza menstrual faltam às aulas. No Brasil, estima-se que 1 em cada 4 meninas já faltou à escola por não ter como manejar sua menstruação de forma digna.
Esse absenteísmo recorrente gera lacunas no aprendizado e é um fator preponderante para a evasão escolar, impedindo que essas jovens desenvolvam seu pleno potencial e perpetuando ciclos de desigualdade de gênero.
Houve diversas tentativas de diminuir esse gap de gênero, nem todas saíram do papel ou tiveram efeito adequado. Em 1988, o Projeto de Lei nº 233/1988 propunha 3 dias de folga mensais para mulheres menstruadas sem necessidade de atestado médico, mas foi arquivado devido à forte resistência de setores empresariais e ao receio de que a medida aumentasse a discriminação contra mulheres no mercado de trabalho.
Passando rápido para os dias mais recentes, a Lei Federal nº 14.214 foi marcada por uma mudança histórica, retirando a menstruação da esfera individual de "higiene pessoal" para tratá-la como uma questão de saúde pública e direito educacional, mas foi inicialmente vetada pelo então presidente Bolsonaro, que chegou a chamá-la de “bolsa perereca", incitando ainda mais o debate nacional.
Desde então ativistas intensificaram as idas a Brasília para validar a urgência da dignidade menstrual como uma política de Estado. Com a consolidação da lei, o Governo Federal passou a ter a obrigação de distribuir de absorventes para públicos específicos, como estudantes de baixa renda, pessoas em situação de rua e a população carcerária.
Durante a pandemia de Covid, quando o Brasil se mobilizou para distribuir cestas básicas, percebeu-se que o absorvente íntimo não é considerado como item de necessidade básica. Junte-se a isso a estimativa de que uma pessoa gaste, em média, R$ 6.000 ao longo da vida em produtos desse gênero, voltamos a mesa novamente em busca de condições de igualdade.
Essa busca tem reflexos também no mercado de trabalho. O que começa como falta de condições básicas passa a ser silenciamento, adaptação constante e sobrecarga invisível. Muitas mulheres seguem trabalhando com dor, oscilação hormonal e queda de energia sem qualquer espaço para reconhecer ou acomodar isso, porque o padrão de desempenho continua sendo masculino, linear e contínuo (homogeneização em vez de padronização).
Mulheres no mercado de trabalho têm um custo individual alto (físico, emocional e profissional), que se traduz em menor bem-estar, menor exposição em momentos-chave e, ao longo do tempo, impacto direto na progressão de carreira. Ou seja, o ciclo que começa na exclusão educacional se perpetua dentro das organizações, agora de forma mais sutil, porém igualmente estrutural.
Pensando bem, talvez a filha da minha amiga tenha razão, sim, para chorar. Ela só não sabe ainda o que vem pela frente.
*Renata Seldin é mentora de carreiras e doutora em Gestão da Inovação, com mais de 24 anos de experiência como executiva em consultoria de gestão. Autora de “As perdas no caminho: em busca de uma família”, ministra palestra sobre temas relacionados à igualdade de gênero no ambiente de trabalho e ao planejamento familiar.

