Gargalhadas vindas de vídeos que humilham mulheres. Outros compartilham conteúdos que tratam a dor alheia como entretenimento, esse são assuntos que estão ganhando espaço entre os adolescentes. Em algumas plataformas digitais, a crueldade circula como uma linguagem comum, sem causar indignação ou ao menos estranheza.Conforme relatório "Elas Vivem: um caminho de luta", publicado pela Rede de Observatórios da Segurança, a cada 24 horas, 12 mulheres são vítimas de violência no país. Já o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), registrou um aumento de 3,49% destes casos em comparação a janeiro do ano passado. Segundo o mesmo conselho, os processos de feminicídio triplicaram nos últimos cinco anos. No entanto, enquanto as estatísticas oficiais chocam, um fenômeno mais inquietante ganha força no ambiente digital: a validação de comportamento diante dessas atrocidades, normalizando o ódio.
O renomado psicólogo canadense-americano Albert Bandura (1925-2021), criador da Teoria Social Cognitiva, dedicou parte de sua carreira a investigar o que chamou de "desengajamento moral". Bandura demonstrou que o ser humano não nasce indiferente ao sofrimento alheio; pelo contrário, possuímos mecanismos internos que regulam nossas ações a partir de princípios éticos. O problema, segundo o pesquisador, é que esses mecanismos podem ser progressivamente desativados, permitindo que pessoas comuns justifiquem atitudes cruéis sem sentir culpa. Pelo visto, as redes sociais fazem isso com eficiência.
Em comunidades digitais associadas ao universo “red pill”, por exemplo, a hostilidade contra mulheres raramente aparece como violência explícita. Ela surge travestida de “realismo”, “verdade” ou até humor. O vocabulário muda, a intenção permanece. O que Bandura descreveu como linguagem eufemística opera aqui com precisão: suaviza-se a agressão até que ela pareça aceitável.
O passo seguinte é ainda mais delicado. A repetição dessa temática reduz a resposta emocional negativa. Aquilo que antes causava horror passa a ser pouco a pouco tolerado. Depois, compartilhado. Por fim, defendido.
A neurociência do desenvolvimento ajuda a compreender a gravidade desse processo, especialmente diante dos jovens. A neurocientista canadense Adele Diamond, uma das maiores autoridades mundiais no estudo do desenvolvimento cognitivo e das funções executivas, aponta que o córtex pré-frontal, região do cérebro responsável pelo controle inibitório, empatia e julgamento moral, leva mais de duas décadas para atingir sua maturidade completa. Isso significa que, diante de estímulos constantes, o cérebro não apenas consome conteúdo: ele aprende com ele. Aprende, inclusive, a não se importar.
Bandura aprofunda esse fenômeno ao demonstrar que a dessensibilização não ocorre isoladamente. Ela é sustentada por mecanismos que reorganizam a forma como o indivíduo interpreta suas próprias ações. A responsabilidade deixa de ser individual e passa a ser diluída no grupo. Quando milhares de usuários curtem e compartilham um vídeo misógino, ninguém se sente responsável pela agressão.
Ao mesmo tempo, constrói-se uma narrativa em que a violência é justificada. O outro deixa de ser percebido como sujeito e passa a ser reduzido a um rótulo, a uma categoria, a um estereótipo. É o processo de desumanização. Não se agride alguém, agride-se “aquilo que ela representa”.
Há ainda um deslocamento sutil: a culpa é transferida para a vítima. “Ela provocou”, “mereceu”, “é assim mesmo”. A agressão deixa de ser vista como escolha e passa a ser apresentada como resposta legítima. Nesse ponto, a autorregulação moral já não opera com a mesma força.
O resultado é uma arquitetura psíquica onde a violência é reinterpretada. O levantamento realizado pelo Instituto DataSenado com cerca de 22 mil brasileiras em 2025, mostrou que 88% das mulheres afirmaram já ter sofrido violência psicológica. A violência física e o feminicídio podem ser vistos como a ponta de um iceberg cuja base é construída diariamente através de piadas, memes e discursos de ódio validados nas redes.
E quando uma geração aprende a reinterpretar a violência antes mesmo de aprender a reconhecê-la, o problema já não está apenas no conteúdo que circula, mas na forma como a consciência coletiva está sendo moldada.
*Sheron Mendes é bióloga, especialista em Neurociência do Comportamento e professora dos cursos de pós-graduação em Educação na UNINTER.

