A ideia de horizontalização, a redução deliberada das assimetrias hierárquicas em organizações, movimentos e instituições, tem ganhado adeptos no Brasil como antídoto contra o patrimonialismo, o autoritarismo social e a cultura do favor que marcam a história do país. No entanto, ao contrário de narrativas entusiastas que tratam a horizontalidade como uma receita universal e apolítica, a experiência brasileira revela tensões profundas: a horizontalização, quando importada acriticamente ou implementada sem considerar as desigualdades estruturais do país, pode reproduzir as mesmas exclusões que promete combater. Problematizar essa agenda não significa rejeitá-la, sim, reconhecer que, no Brasil, achatar o poder exige antes enfrentar hierarquias que poucos ousam nomear.
Exemplos brasileiros de tentativas de horizontalização não faltam, e cada um deles ilumina um aspecto particular desse desafio. O Orçamento Participativo (OP) de Porto Alegre, nos anos 1980 e 1990, foi saudado internacionalmente como um modelo de democracia deliberativa horizontal: cidadãos comuns decidiam a aplicação de recursos públicos por meio de assembleias regionais e temáticas, sem mediação de vereadores ou secretários. No entanto, estudos mostram que, com o tempo, o OP reproduziu hierarquias informais, lideranças comunitárias mais articuladas, detentoras de capital escolar e político, passaram a dominar as discussões, enquanto os mais pobres entre os pobres permaneciam silenciosos. A horizontalidade formal não apagou a desigualdade substantiva de voz. Outro exemplo emblemático são as ocupações de escolas secundaristas em São Paulo (2015) e no Paraná (2016), onde estudantes organizaram assembleias diárias, comitês temáticos e rodízio de tarefas. Houve notável inovação horizontal: meninas e meninos antes marginalizados assumiram funções de coordenação. Contudo, a experiência também expôs os limites da horizontalidade em contextos de violência estatal, a falta de uma cadeia de comando clara dificultou respostas rápidas a invasões policiais, e lideranças informais (muitas vezes mulheres negras da periferia) acabaram assumindo riscos desproporcionais sem o respaldo de uma estrutura protetiva.
No campo do trabalho, cooperativas populares de catadores de materiais recicláveis, como a Cooperativa de Catadores Autônomos de Papel, Aparas e Materiais Reaproveitáveis (Coopamare) em São Paulo, adotaram princípios horizontais inspirados no cooperativismo europeu. Porém, rapidamente se viram diante de um dilema: para acessar contratos públicos e competir com empresas privadas, precisavam de representação jurídica e gestão profissionalizada, o que gerou demandas por hierarquias funcionais. As assembleias constantes mostravam-se inviáveis diante da urgência da coleta e da prefeitura que cobrava prazos. O resultado foi uma tensão permanente entre a “pureza” horizontal e a eficácia no mercado, muitas cooperativas acabaram recriando, sob outros nomes, a figura do gestor que coordena e decide. Já no ativismo digital, o Movimento Brasil Livre (MBL) e o Fora Temer surgiram com forte discurso de horizontalidade nas redes sociais, usando enquetes online e grupos de WhatsApp para decisões coletivas. Todavia, críticos apontaram que essa horizontalidade digital mascara hierarquias duras, quem controla os grupos, define as pautas e financia a comunicação exerce poder invisível, e os algoritmos das plataformas favorecem vozes já amplificadas, não a igualdade deliberativa.
O que esses exemplos brasileiros sugerem é que a horizontalização, no contexto de um país com um dos maiores índices de desigualdade do mundo, heranças escravocratas e uma cultura política de "jeitinho" e clientelismo, não pode ser um simples arranjo procedimental. Horizontalizar formalmente, fazer assembleias, votar em pé de igualdade, abolir cargos fixos, é necessário, mas insuficiente. Sem enfrentar o que o sociólogo Jessé Souza chama de “subcidadania” estrutural, a horizontalidade tende a beneficiar aqueles que já têm capital cultural, tempo disponível e redes de contato. O operário analfabeto funcional, a catadora que chega exausta após dupla jornada, o jovem da periferia ameaçado pela milícia, todos eles podem estar na mesma assembleia, entretanto, sua capacidade de falar, deliberar e influenciar será drasticamente diferente. A hierarquia de classe, raça e gênero não desaparece por decreto horizontalista.
A inovação reflexiva que se oferece aqui, portanto, é a seguinte: problematizar a horizontalização no Brasil exige substituir o ideal de “ausência de hierarquia” pelo princípio de “hierarquia reversível e compensada”. Reversível, no sentido de que qualquer posição de coordenação deve ter mandato curto, rodízio obrigatório e prestação de contas transparente. Compensada, no sentido de que a participação em espaços horizontais deve vir acompanhada de mecanismos redistributivos, tempo remunerado para quem precisa trabalhar durante as assembleias, creches para cuidar de filhos, tradução de linguagem técnica para o português simples, e cotas de presença e de fala para grupos historicamente subalternizados sem que isso seja confundido com paternalismo. O Orçamento Participativo só começou a funcionar melhor quando instituiu assessores técnicos que traduziam os planos plurianuais para a linguagem popular; as ocupações de escolas avançaram quando criaram comissões de acolhimento que garantiam a vez dos alunos mais tímidos. Em outras palavras, para achatar a pirâmide é preciso, paradoxalmente, construir andaimes, estruturas temporárias que sustentem a participação dos que estão no chão enquanto não se aprende a voar coletivamente. O futuro da democracia brasileira não será plano, porque aplainar o desigual é uma violência. Será articulado, com juntas que permitem movimento, com dispositivos que lembram que a horizontalidade só faz sentido quando vem acompanhada da verticalidade da justiça, que vem da base para garantir que ninguém fique de fora antes mesmo de a assembleia começar.
*Thiago Barbosa Soares é analista do discurso, escritor e professor da Universidade Federal do Tocantins (UFT).

