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Cotidiano

Foto: Designed by Magnific (www.magnific.com) - Freepik

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Quantas horas por dia o seu filho passa em frente a uma tela? A pergunta, que há dez anos soaria exagerada, tornou-se uma das mais urgentes entre pais, educadores e profissionais de saúde. O tempo médio de exposição de crianças a dispositivos digitais no Brasil já supera quatro horas diárias, e os efeitos disso aparecem nos consultórios, nas escolas e, cada vez mais, no comportamento cotidiano.

Do outro lado dessa equação está algo simples, gratuito e com efeitos comprovados: brincar ao ar livre. Correr, pular, escalar, explorar, atividades que por gerações foram parte natural da infância, mas que perderam espaço na rotina das crianças contemporâneas. Especialistas defendem uma revisão urgente de prioridades.

O que a ciência diz? 

A psicopedagoga e professora Aline Vieira Mendonça acompanha de perto as transformações no comportamento infantil. Para ela, a busca por ambientes que favoreçam o brincar livre já não é uma tendência, é uma necessidade. "As pessoas estão buscando, em um espaço de moradia, realmente o viver em um clube. Um lugar onde a casa seja a área mais íntima e todo o entorno seja uma extensão dela, com segurança, com natureza, com espaço para os filhos crescerem", conta.

A neurociência confirma: pesquisa publicada na JAMA Pediatrics mostrou que crianças com mais de uma hora diária de tela aos 2 anos apresentaram piora em habilidades de comunicação aos 4 anos, e que brincar ao ar livre funcionou como fator de proteção, amenizando parte desses impactos. Outro estudo, com crianças de 2 a 5 anos, apontou que o tempo ao ar livre está diretamente associado a melhores habilidades sociais, enquanto o excesso de telas foi relacionado à piora no comportamento e na capacidade de interação.

Menos ansiedade, mais autonomia

O brincar não estruturado, aquele em que a criança define as regras, o ritmo e o objetivo, estimula o desenvolvimento do córtex pré-frontal, região do cérebro responsável pelo planejamento, controle emocional e tomada de decisões. Brincar livremente, em outras palavras, ensina a criança a pensar. 

Aline reforça que a sensação de segurança no ambiente transforma a qualidade dessas experiências. "Você ter um local onde está despreocupado com os filhos na rua, vivendo com menos preocupação, isso muda tudo. A criança sente essa liberdade e se desenvolve de outra forma". O medo da violência e a falta de espaços adequados nas cidades empurraram a infância para dentro de casa. O resultado é uma geração sedentária, ansiosa, e cujos corpos e mentes pagam um preço alto por isso.

Medicalização precoce: um alerta

O crescimento no diagnóstico de TDAH e outros transtornos em crianças cada vez mais novas acende um sinal de alerta. Especialistas não negam a existência dessas condições, mas alertam que parte do que chega aos consultórios como sintoma pode ser resposta a um estilo de vida empobrecido de movimento e natureza.

"A criança que não tem onde gastar energia, que passa horas estimulada por telas, vai apresentar comportamentos que preocupam. Antes de qualquer conclusão, é preciso perguntar: essa criança brinca? Ela tem espaço para isso?", pontua Aline. A Academia Americana de Pediatria reforça que as telas não devem substituir o brincar, o movimento e a convivência familiar, pilares insubstituíveis do desenvolvimento saudável.

Uma mudança que começa no lugar onde se vive

Se o problema tem raízes no ambiente, parte da solução também passa por ele. E as famílias já perceberam isso. Cresce no Brasil a busca por lugares onde as crianças possam, de fato, ter rua, espaços com segurança, natureza e liberdade para brincar. Não é por acaso que condomínios com áreas abertas generosas, quadras, lagos e paisagismo habitado passaram a figurar no topo das listas de prioridade de quem decide onde morar. A lógica mudou: não se busca mais apenas uma casa, mas um entorno que complete a vida familiar.

É nesse contexto que surgem projetos como o Reserva Home Club, em Tubarão (SC), pensado como um clube integrado ao cotidiano, com áreas de lazer ao ar livre, quadras esportivas, lago, paisagismo com árvores frutíferas e espaços dedicados ao convívio entre crianças e famílias. "O principal objetivo foi criar espaços de convivência que potencializem as memórias das pessoas. Festas de aniversário, jogos, encontros, famílias com filhos crescendo em um ambiente de segurança e liberdade. As famílias não estão mais procurando apenas uma casa. Estão procurando um lugar onde os filhos possam crescer com autonomia, onde a rua dentro do condomínio seja uma extensão segura do lar”, conta Felipe Esmeraldino, sócio-proprietário do Reserva. 

Como devolver a infância ao ar livre? 

A mudança não exige grandes decisões. Reserve ao menos uma hora diária para atividades ao ar livre, sem tela e sem agenda. Permita o brincar não estruturado, a criança que escolhe e lidera aprende com os próprios erros. Valorize o tédio: quem não sabe o que fazer aprende a criar. E reveja o uso de telas antes dos 2 anos, nessa faixa, a interação humana e a exploração sensorial são insubstituíveis. "A gente precisa criar condições para que as crianças vivam experiências reais. Memórias se fazem com o corpo em movimento, com amigos, com natureza. Nenhuma tela consegue oferecer isso", resume Aline Mendonça.