Conexão Tocantins - O Brasil que se encontra aqui é visto pelo mundo
Opinião

FH Machado é analista jurídico, escreve de Guaraí/TO, sobre política, cotidiano e sociedade.

FH Machado é analista jurídico, escreve de Guaraí/TO, sobre política, cotidiano e sociedade. Foto: Divulgação

Foto: Divulgação FH Machado é analista jurídico, escreve de Guaraí/TO, sobre política, cotidiano e sociedade. FH Machado é analista jurídico, escreve de Guaraí/TO, sobre política, cotidiano e sociedade.

Os números mais recentes sobre saúde mental ajudam a explicar aquilo que muita gente já sente na pele: estamos cansados. Uma pesquisa global da Ipsos mostrou que a saúde mental ultrapassou doenças historicamente temidas e passou a ocupar o topo das preocupações sanitárias em diversos países. No Brasil de 2026, porém, talvez fosse necessário criar uma categoria própria: ansiedade eleitoral.

Sempre gostei de eleição, de campanha e do debate político. No interior do Tocantins, assim como em centenas de cidades brasileiras, política não é apenas assunto; é movimento, conversa de esquina, discussão na fila do banco, comentário na padaria e tema obrigatório nos grupos de WhatsApp. Se antes os assuntos cotidianos eram o calor que castiga, a eterna luta para emagrecer ou o preço dos alimentos, hoje basta abrir o celular para perceber que a polarização política invadiu todos os espaços.

Vivemos uma espécie de transtorno político compartilhado. Em muitos lugares, o debate público deixou de ser uma disputa saudável de ideias e projetos para se transformar em um teste diário de resistência emocional. Mensagens alarmistas, vídeos cortados, correntes apocalípticas e discussões que começam no WhatsApp e terminam em bloqueios familiares passaram a ocupar um espaço cada vez maior da rotina. Sobra pouco espaço para a normalidade.

Em Guaraí, como em tantas cidades brasileiras, há quem só queira sentar para comer um espetinho na Avenida Bernardo Sayão sem transformar o vizinho da mesa ao lado em inimigo político. Parece exagero, mas basta circular pela cidade em ano eleitoral para perceber que divergências políticas deixaram de ser apenas divergências: viraram identidades.

A tecnologia amplificou tudo. O algoritmo recompensa indignação, acelera conflitos e transforma qualquer discordância em espetáculo. Em períodos eleitorais, essa dinâmica ganha contornos ainda mais agressivos: famílias entram em atrito, amizades se desgastam e a sensação permanente de crise passa a ocupar um espaço que antes pertencia ao cotidiano simples.

As eleições estão batendo à porta e talvez seja hora de admitir algo desconfortável: escolher candidatos e votar virou, para muita gente, um exercício psicológico. Respira-se fundo antes de abrir as redes sociais, evita-se determinados grupos de conversa e administra-se o receio de que qualquer opinião gere horas de desgaste emocional. Em cidades do interior, onde todos se conhecem, essa tensão ganha uma camada extra: divergências políticas deixam de ser abstratas e passam a ter nome, rosto e endereço.

Se a saúde mental se tornou prioridade global, talvez seja hora de discutir também os efeitos emocionais da polarização permanente. O voto continua sendo um ato fundamental da democracia. O esgotamento coletivo, porém, tornou-se um efeito colateral cada vez mais visível.

Porque, se todas as previsões apocalípticas compartilhadas nos últimos anos estivessem corretas, o Brasil já teria acabado dezenas de vezes. E, apesar do barulho, seguimos aqui: trabalhando, criando filhos, pagando boletos, enfrentando o calor tocantinense e tentando construir rotina em meio ao caos permanente das notificações.

Talvez exista uma lição simples nisso tudo: democracia exige participação, mas sobrevivência emocional também exige limites. Desligar o celular por algumas horas, silenciar grupos inflamados e lembrar que adversários políticos não precisam se tornar inimigos pessoais pode ser menos um gesto de alienação e mais um exercício de sanidade.

Porque, independentemente do resultado das urnas, a vida, e o dia seguinte, continuam existindo.

 *FH Machado é analista Jurídico, escreve de Guaraí, Tocantins, sobre política, cotidiano e sociedade.