Eram 53 minutos do segundo tempo, quando a final da Copa Africana de Nações vivenciou uma das maiores bizarrices da história do futebol, praticada pelo árbitro da partida. A marcação de um pênalti pra lá de duvidoso. Minutos antes, o árbitro já havia anulado, de maneira também duvidosa, um gol da seleção visitante.
A partir disso pode-se inferir que o torneio de futebol do continente africano não revelou apenas um campeão. Revelou um homem. Senegal superou a anfitriã Marrocos, mas o que transformou aquela decisão em algo maior foi a presença serena, firme e decisiva de Sadio Mané.
Mané vem de Bambali, uma pequena vila no interior do Senegal onde a pobreza não era discurso; era rotina. O senegalês cresceu entre dificuldades materiais, ausência de estrutura esportiva e poucas perspectivas. Jogava futebol descalço, em campos improvisados, carregando mais sonhos do que certezas.
O sucesso não o afastou das raízes. Ao contrário, ampliou seu compromisso com elas. Já consagrado no futebol europeu e mundial, Mané retornou a Bambali para construir hospitais, escolas, centros comunitários, além de garantir auxílio financeiro mensal a famílias da região. Investiu em educação, saúde e dignidade. Uma de suas frases preferidas é “para mim, é o suficiente ter minhas necessidades básicas. Não preciso de dezenas de relógios de ouro, prefiro que meu povo receba um pouco do que a vida me deu.”
Essa grandeza apareceu também no momento mais tenso da final. Após a marcação de um pênalti que gerou revolta, o técnico senegalês cogitou retirar o time de campo. O jogo ameaçava se perder. Foi Mané quem interveio. Chamou os companheiros, pediu equilíbrio, trouxe todos de volta. Liderou sem gritar, sem confrontar, sem inflamar.
Após a cobrança de pênalti desperdiçada pela seleção marroquina e quando a bola voltou a rolar, ele fez o que grandes jogadores fazem: decidiu. Na prorrogação, Mané com passe de calcanhar, participou da origem da jogada do gol, iniciando a construção ofensiva com inteligência e leitura de jogo, maestria que culminou no gol de Pape Gueye. Não foi apenas técnica. Foi entendimento do momento, entrega ao coletivo e maturidade competitiva.
Não por acaso, essa conquista dialoga com a música Canto para o Senegal, grande sucesso da Banda Reflexus no final dos anos 80. A canção celebra orgulho, identidade e pertencimento, exatamente o que Mané representa para seu povo. Ele é o menino de Bambali que venceu o mundo sem abandonar a própria história. Talvez seja a personificação majestosa dos Baobás.
Em tempos em que ídolos muitas vezes se limitam ao talento, Sadio Mané prova que a verdadeira grandeza está em quem se torna referência dentro e fora de campo.
Enfim, Senegal levantou a taça, tornando-se bicampeão africano de futebol. E Mané confirmou que não é mané coisa nenhuma, reafirmou algo ainda mais raro: é possível ser estrela mundial e comandar uma seleção sem deixar de ser humano.
*Claiton Cavalcante é membro da Academia Mato-Grossense de Ciências Contábeis e do Instituto dos Contadores do Brasil.

