O Conselho Federal de Economia (Cofecon) publicou, nessa segunda-feira (23), uma nota oficial sobre os reflexos econômicos do conflito no Oriente Médio. O documento destaca que, apesar da redução da taxa Selic para 14,75% ao ano, o Brasil registra uma taxa de juros real superior a 10% a.a., uma das maiores métricas globais em um contexto de inflação acumulada de 3,8% nos últimos doze meses.
A análise da autarquia correlaciona a instabilidade geopolítica com gargalos logísticos e pressões inflacionárias que atingem as cadeias de suprimentos mundiais. O foco das preocupações reside no Estreito de Ormuz, ponto geográfico por onde transita parcela significativa da produção de petróleo. As limitações de tráfego na região geram aumento nos custos de frete e lentidão na entrega de insumos básicos, com impacto direto na produção de fertilizantes.
No cenário internacional, o Federal Reserve (Fed) manteve a taxa de juros dos Estados Unidos entre 3,5% e 3,75% ao ano na reunião de 18 de março. O movimento interrompeu o ciclo de cortes anterior, fundamentado na volatilidade de preços e na incerteza sobre a duração dos ataques armados. No Brasil, o Comitê de Política Monetária (Copom) optou por um corte de 0,25 ponto percentual, vinculando novos ajustes à evolução do cenário externo.
O Cofecon avalia o momento como decisivo para a gestão da dívida pública e do crédito privado. "O nível atual da Selic significa uma taxa real de juros superior a 10% ao ano, o que encarece o financiamento das empresas e das famílias", afirma o documento. Para o Conselho, a manutenção desses patamares restringe a capacidade de investimento e agrava a situação de agentes econômicos endividados.
No setor de energia, o Brasil apresenta dados distintos. O País detém autonomia na produção de petróleo bruto, mas mantém dependência externa de 25% para o suprimento de óleo diesel. Essa vulnerabilidade reflete diretamente no custo dos transportes e fretes internos. Por outro lado, a matriz energética nacional conta com 50% de fontes renováveis, como hidroelétrica, biomassa, solar e eólica. A valorização internacional do petróleo é apontada como um fator que abre espaço para a ampliação da oferta de etanol.
Em comparação com as crises do petróleo registradas no final do século XX, o documento indica que o Brasil possui hoje uma posição de maior solidez no balanço de pagamentos. As reservas cambiais, situadas em US$ 365 bilhões, funcionam como mecanismo de mitigação contra choques exógenos na taxa de câmbio.
O Cofecon defende o aprofundamento da segurança de fornecimento de fertilizantes e insumos para estabilizar a produção nacional diante de crises externas e permitir que iniciativas em curso, como o Plano Nova Indústria Brasil, ganhem dimensão.
A autarquia reforça, ainda, a necessidade de coordenação entre os setores público e privado para enfrentar o atual ciclo econômico. "O cenário geopolítico-econômico impõe desafios que exigem o aprimoramento do papel do Estado, das políticas públicas e dos bancos estatais", observa.
O texto conclui que a superação das debilidades estruturais brasileiras depende de uma recalibragem contínua das taxas de juros ao longo de 2026. A nota oficial sinaliza que a articulação entre empresas estatais e o setor privado é a via para a criação de oportunidades em um ambiente de desaceleração das atividades globais e elevação dos custos de produção.
O acompanhamento dos conflitos no Oriente Médio permanece como a variável central para as decisões das autoridades monetárias nos próximos meses, influenciando tanto a inflação doméstica quanto às expectativas de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB).
