O cenário econômico brasileiro enfrenta um novo e agressivo vilão: as plataformas de apostas online, conhecidas como bets. O que antes era visto como entretenimento casual transformou-se na principal causa de endividamento no País, superando até mesmo os juros de cartão de crédito e empréstimos.
Segundo um levantamento do Ibevar, em parceria com a FIA Business School, o coeficiente associado às apostas (0,2255) é superior ao impacto do crédito sobre a renda (0,0440) e dos juros ao consumidor (0,0709). A pesquisa, divulgada recentemente, mostra as bets deixaram de ser apenas um hábito de consumo e passaram a representar um risco real para a saúde financeira das famílias.
Outro estudo, feito pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) em parceria com o Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil), aponta que a popularização dessas plataformas atraiu 39,5 milhões de brasileiros entre 2024 e 2025 - o equivalente a um terço dos consumidores digitais do país.
Para Charles Mendlowicz, sócio da consultoria de wealth management Ticker Wealth e fundador do canal Economista Sincero, a situação atingiu um ponto de ruptura. "Chegamos a um ponto onde a situação saiu do controle. Na minha opinião, isso aqui já está acontecendo há muito tempo. Milhões de pessoas estão endividadas, é praticamente um problema de saúde pública", avalia o economista.
"Dinheiro vazio"
A grande diferença entre o endividamento por apostas e o consumo tradicional reside no destino do capital. Mendlowicz classifica o prejuízo das bets como "dinheiro vazio", pois, diferente de um financiamento de imóvel ou veículo, não há um bem físico ou retorno futuro que justifique o gasto.
"A pessoa gasta o dinheiro que ela economizou, o dinheiro que ela tem agora, e compromete o futuro por nada. É um endividamento sem justificativa plausível, que leva a pessoa a uma situação desesperadora", afirma o Economista Sincero.
O estudo da CNDL mostra que o impacto das bets já é visível na economia: 41% dos apostadores já deixaram de consumir algum produto ou serviço para jogar, e cerca de 17% dos apostadores admitem que deixaram de pagar contas básicas, como luz e água, para priorizar as apostas.
Do bolso das famílias ao caixa das empresas
A crise não se restringe às contas domésticas. Um dado alarmante, revelado em uma pesquisa feita pelo Fundo de Impacto Estímulo e pela MindMiners, indicou que quase 20% dos pequenos negócios já utilizaram o caixa da empresa para realizar apostas online. Além disso, o vício tem gerado conflitos familiares e problemas de saúde mental, como ansiedade e depressão, relatados por 28% dos participantes do estudo da CNDL.
Charles critica a postura governamental, que, segundo ele, foca excessivamente na arrecadação tributária em vez de conter o avanço do vício. "O governo está sendo negligente com a saúde emocional, física e familiar das pessoas. Passa a impressão de que só quer saber de arrecadar a parte dele", acredita o economista.
A perigosa lógica do jogador
O ciclo de endividamento é alimentado por uma lógica perigosa de "recuperação" do prejuízo. Muitas vezes influenciados por promessas de lucros rápidos em redes sociais, apostadores utilizam o pouco recurso que resta na tentativa de quitar dívidas anteriores.
"A conta que o jogador faz é sempre o próximo passo. A pessoa cria a lógica dela sempre achando que vai ganhar um dinheiro, é um pensamento extremamente preocupante. Com o endurecimento das regras de crédito e o aumento da inadimplência, o Brasil caminha para um ‘passivo violento’ que pode levar anos para ser sanado”, conclui o Economista Sincero.
Charles Mendlowicz
Charles Mendlowicz é um dos principais nomes do mercado financeiro brasileiro, com 30 anos de experiência e um histórico de sucesso tanto no mercado financeiro quanto no varejo. É sócio da consultoria de wealth management Ticker Wealth, onde lidera a estratégia de expansão, e autor do best-seller 18 princípios para você evoluir. Sua abordagem direta e transparente o consagrou como um influenciador confiável, tendo sido eleito o melhor influenciador de investimentos pela ANBIMA em quatro ocasiões.

