A frase correu rápido. Durante um evento de tecnologia realizado nesta semana, Fábio Coelho, presidente do Google Brasil, afirmou que "só um terço das tarefas de trabalho serão humanas em 2030". O impacto foi imediato e compreensível. Mas antes de entrar em pânico ou celebrar, vale ler a frase com mais cuidado.
Coelho não disse que dois terços dos trabalhadores vão desaparecer. Ele falou em tarefas. E ele mesmo complementou: o avanço da IA "não elimina a necessidade de competências humanas", pelo contrário, "habilidades como pensamento criativo, liderança, resiliência e aprendizado contínuo aparecem ao lado de competências técnicas ligadas à tecnologia". A manchete assusta. O contexto, não tanto.
A virada que ninguém está discutindo
Se a IA vai absorver boa parte das tarefas operacionais e repetitivas, o que sobra para os humanos não é menos trabalho, é trabalho mais complexo, mais estratégico, mais difícil de delegar. O terço que permanece humano exige mais, não menos, capacidade de decisão.
Para Coelho, "os agentes são o próximo capítulo da IA", e ele os descreve como "IA com currículo". Num primeiro momento, a tecnologia complementa as pessoas, dando "superpoderes" para que façam seu trabalho melhor. Mas isso pressupõe que as pessoas saibam o que fazer com esses superpoderes. É aí que mora o problema real das empresas: não a automação em si, mas a falta de preparo para dirigir o que a automação não consegue substituir.
O papel da TI nessa equação
Quando Coelho fala em "mudança estrutural na economia digital", ele está descrevendo exatamente o cenário que empresas de tecnologia já vivem na prática, e que organizações de todos os setores ainda estão tentando entender.
A transição não é sobre substituir pessoas por sistemas. É sobre construir a infraestrutura certa para que as pessoas certas tomem as decisões certas. Nesse contexto, a tecnologia deixa de ser suporte e passa a ser alavanca estratégica, e quem entender isso primeiro sai na frente.
"A tecnologia evolui. Não adianta a gente se esconder atrás dela", disse Coelho. Fato. Mas também não adianta correr atrás dela sem saber para onde está indo. 2030 está mais perto do que parece. E a pergunta que cada empresa deveria estar respondendo agora não é "meu emprego vai existir?", mas "minha operação está preparada para usar bem o que a tecnologia vai liberar?". O futuro do trabalho não é menos humano. É mais exigente com o que há de humano em cada decisão.

