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Cotidiano

Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom

Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom

O tempo de tela entre crianças cresce de forma acentuada durante as férias escolares, elevando sintomas como irritabilidade, dificuldades de sono e maior desregulação emocional, segundo levantamentos recentes. Um estudo publicado no JAMA Pediatrics identificou que o uso diário de dispositivos digitais chega a aumentar entre 40% e 70% nesse período. Dados do Common Sense Media mostram que o tempo médio de entretenimento digital infantil já supera 5h40 por dia, número que tende a crescer quando a rotina escolar é suspensa.

A luz azul emitida por dispositivos reduz a produção de melatonina e pode atrasar o início do sono em até duas horas, apontam estudos da Sleep Foundation. Pesquisadores da University of Toronto observaram que crianças que utilizam telas à noite apresentam maior fragmentação do sono REM, associado à consolidação de memória e regulação emocional.

Do ponto de vista psicológico, o impacto não se limita à estimulação sensorial. A literatura aponta que estímulos digitais intensos ativam circuitos de recompensa no cérebro infantil, especialmente o sistema dopaminérgico, aumentando a busca por gratificação imediata e reduzindo a capacidade de autorregulação. Estudos da American Academy of Child & Adolescent Psychiatry mostram que o uso prolongado de telas está associado a maior impulsividade, menor tolerância à frustração e dificuldades de transição entre atividades, todos quadros que se acentuam quando a rotina está menos estruturada, como nas férias.

A psicóloga Andrea Beltran explica que o aumento repentino de exposição digital altera o equilíbrio emocional dos pequenos. “As telas ativam o sistema nervoso de maneira intensa e contínua. Quando essa excitação não é compensada por descanso ou atividades físicas, aparecem irritabilidade, agitação e baixa tolerância à frustração”, afirma. “O sono prejudicado agrava tudo, porque é durante a noite que o cérebro infantil processa estímulos e estabiliza o humor”.

Além do impacto individual, há efeitos familiares. Pesquisas conduzidas pela University of Michigan mostram que conflitos domésticos relacionados ao uso de dispositivos tendem a aumentar durante as férias, especialmente em casas onde não há regras claras. “Rotinas flexíveis são parte do descanso, mas a ausência total de limites cria um ambiente de tensão”, reforça a psicóloga.

A especialista recomenda pausas regulares, supervisão ativa e o uso moderado de dispositivos antes de dormir. “Não é sobre proibir, mas sobre reposicionar as telas para que deixem de ocupar o lugar de outras experiências fundamentais da infância, como brincar, explorar e descansar”.