Vive-se hoje uma era de aceleradas transformações culturais a partir das quais as estruturas simbólicas que outrora organizavam o imaginário coletivo parecem fragmentar-se diante da fluidez digital e da globalização. Nessa conjuntura, os arquétipos, padrões universais de comportamento e representação, conforme formulados por Carl Jung, não desaparecem, porém, sofrem significativas mutações, adaptando-se às novas linguagens e demandas sociais. A presente reflexão propõe-se a analisar como essas “imagens primordiais” reconfiguram-se no cotidiano, transitando do mito à tela do celular, e qual o seu papel na negociação de identidades num mundo hiperconectado.
Historicamente, os arquétipos funcionaram como bússolas existenciais, oferecendo modelos de herói, sábio, mãe que orientavam narrativas religiosas, literárias e comunitárias. Na pós-modernidade, contudo, observa-se um fenômeno duplo: por um lado, a descaracterização dessas figuras pela lógica do consumo; por outro, a sua revitalização em nichos subculturais e movimentos identitários. Tome-se como exemplo o arquétipo do herói. Se antes ele era encarnado por figuras épicas como Ulisses ou Dom Quixote, hoje pululam nos filmes de super-heróis da Marvel, mas também em influenciadores digitais que, das periferias, constroem narrativas de superação pessoal em plataformas como o Instagram. A Jornada do Herói, de Joseph Campbell, é agora vivida em timelines, onde o “chamado à aventura” pode ser um vídeo viral e o “elixir” um clique de like.
Outro arquétipo em metamorfose é o da anciã ou do sábio. Tradicionalmente associado à experiência e à transmissão oral de conhecimento, ele ressurge nos influenciadores de longevidade e nos “gurus” de autoajuda que povoam o YouTube, frequentemente esvaziados de profundidade em favor de fórmulas rápidas de sucesso. Contudo, há também uma apropriação crítica: jovens que resgatam saberes ancestrais indígenas ou africanos através de redes sociais, reinterpretando a figura do curandeiro ou do griot (contadores de histórias, músicos, poetas e guardiões da tradição oral na África Ocidental) num contexto de resistência cultural e decolonialidade.
O arquétipo da sombra, que representa os aspectos reprimidos da psique, encontra no ambiente digital um palco paradoxal. As redes sociais, ao mesmo tempo que incentivam a exibição de uma persona idealizada (a “sombra” ocultada), também são terreno fértil para o vazamento do inconsciente coletivo em forma de haters, cancelamentos e polarizações. O anonimato online permite a projeção de sombras individuais e grupais, criando bodes expiatórios virtuais, um fenômeno que remete aos rituais de purificação arcaicos, agora desprovidos de qualquer transcendência.
No cotidiano, essas mutações são perceptíveis em práticas corriqueiras. O arquétipo do cuidador, por exemplo, desloca-se da figura materna tradicional para o universo dos pets, no qual cães e gatos são tratados como filhos, recebendo roupas, psicólogos e até heranças. A indústria pet aproveita-se dessa projeção arquetípica, comercializando afetos. Similarmente, o arquétipo do fora-da-lei, antes romantizado em bandidos sociais, como Robin Hood, é agora corporificado por hackers ativistas ou por figuras do crime organizado que viram celebridades no funk ostentação, desafiando a moral vigente enquanto alimentam o imaginário de rebeldia.
A função dos arquétipos nas novas mudanças culturais é, portanto, ambivalente. Eles servem tanto à lógica mercadológica, que os transforma em estereótipos vendáveis, quanto à necessidade humana de significado num mundo dessacralizado. Cabe à crítica cultural e à psicologia analítica, entre outras áreas da psicologia, contemporânea descrever e interpretar essas dinâmicas, lembrando que, como sugeriu Jung, os arquétipos não são conteúdos estáticos, são formas vazias que se preenchem com a substância de cada época. Neste início de século XXI, a sua reinvenção revela não apenas a atual crise de valores, mas, principalmente a perene capacidade do espírito humano de criar mitos, ainda que sejam mitos de 140 caracteres, ainda que se manifestem em memes e stories efêmeros. O desafio é reconhecer, nessa profusão de imagens, quais arquétipos ajudam a construir um futuro mais consciente e quais aprisionam às narrativas de repetição e alienação.
*Thiago Barbosa Soares é analista do discurso, escritor e professor da Universidade Federal do Tocantins (UFT).

