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Opinião

A utilização de veículos elétricos se tornou uma realidade cada vez mais presente nas ruas, rodovias e avenidas em escala global. Impulsionado por questões ambientais, avanços tecnológicos e mudanças no comportamento do consumidor, o crescimento da mobilidade elétrica ocorre de forma acelerada, e aqui no Brasil não seria diferente.

No entanto, por trás dessa transformação, existe um ponto crítico que ainda recebe pouca atenção: o impacto direto dessa expansão no transporte de cargas perigosas, especialmente das baterias de lítio, elemento central dos veículos elétricos.

Do ponto de vista regulatório e operacional, essas baterias são classificadas como cargas perigosas devido ao risco de incêndio, explosão e fuga térmica. Isso significa que seu transporte exige uma cadeia altamente controlada, com requisitos rigorosos de embalagem, rotulagem, documentação e treinamento.

Na prática, estamos lidando com um aumento significativo no volume de materiais perigosos circulando globalmente. E esse crescimento não se limita ao envio de baterias novas para montadoras. Ele se estende também à logística reversa, que envolve baterias usadas, danificadas ou em fim de vida útil, um processo igualmente sensível e que demanda alto nível de controle.

Esse cenário é regido por um conjunto robusto de normas técnicas e regulatórias. No Brasil, destacam-se as diretrizes da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) e do Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (INMETRO). No contexto internacional, entram em cena regulamentações como as do Department of Transportation (DOT), além dos padrões estabelecidos por International Air Transport Association (IATA), International Civil Aviation Organization (ICAO) e o International Maritime Dangerous Goods Code (IMDG-Code), no transporte marítimo.

O desafio, portanto, não está apenas em conhecer essas normas, mas em garantir sua aplicação correta em todos os modais. Afinal, cada etapa, do acondicionamento ao transporte, precisa ser executada com precisão técnica. Falhas nesse processo podem resultar não apenas em penalidades legais, mas em riscos reais à segurança das operações e ao meio ambiente.

Outro ponto essencial é a qualificação dos envolvidos, já que o transporte de baterias de íon-lítio exige profissionais capacitados, familiarizados com requisitos técnicos e preparados para lidar com situações de risco. Além disso, a escolha de embalagens certificadas e homologadas é um fator determinante para garantir a integridade da carga. Nesse quesito, a necessidade de maior controle e segurança impulsiona o desenvolvimento de soluções como embalagens mais eficientes, sistemas de monitoramento em tempo real e processos mais estruturados de logística reversa.

A eletrificação da mobilidade é um caminho importante para o futuro global, e sem volta. No entanto, seu sucesso depende diretamente da capacidade de toda a cadeia logística acompanhar essa evolução com responsabilidade. Não basta produzir e vender veículos elétricos em larga escala, é fundamental garantir que os componentes críticos que os viabilizam sejam transportados com segurança, dentro das normas e com controle rigoroso.

*Leonardo Lopes Bezerra é consultor em materiais perigosos e especialista em certificação e conformidade de embalagens segundo normas internacionais como DOT (EUA), ANTT e INMETRO, IATA/ICAO e IMDG‑Code