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Opinião

Thiago Barbosa Soares é analista do discurso, escritor e professor da UFT.

Thiago Barbosa Soares é analista do discurso, escritor e professor da UFT. Foto: Divulgação

Foto: Divulgação Thiago Barbosa Soares é analista do discurso, escritor e professor da UFT. Thiago Barbosa Soares é analista do discurso, escritor e professor da UFT.

Para explicar o pensamento mágico não é necessário um grande expediente tampouco vencer matrizes da formação do psicológo. Basta, para este texto, claro, entender que o pensamento é uma elaboração mental com base na realidade concreta (vivencial), já o pensamento mágico, que não é tão diferente, volta-se para o desejo de seu criador ou mesmo volta-se para o desejo do interlocutor. Assim, o pensamento mágico é, com a delimitação feita aqui, uma projeção idealizada acerca de algo. Ora, o leitor pode imaginar que não há uma real diferença entre pensamento e sua versão mágica, já que o primeiro é, mutatis mutandis, uma representação, pela linguagem (interior e/ou exterior), do mundo ao passo que sua variante mágica só se instala na expressão do desejo. Saindo da conversa psicanalítica de boteco, só o exemplo, como dizia Aristóteles, pode arrastar... se o convencimento não foi empreendido.

Pois bem, cinge-se este artigo ao cotidiano. O pensamento mágico, na acepção modesta aqui delimitada, é o que faz o executivo cruzar os dedos antes de apertar “enviar” num e-mail decisivo, convicto de que aquele gesto arcaico inclinará a balança dos negócios. É o que leva o torcedor a vestir a mesma camisa suada por três jogos seguidos, estabelecendo uma relação de causa e efeito na qual só há coincidência e desejo. É o que faz o vizinho evitar pisar nas juntas da calçada, não por distração ou hábito, mas pela vaga certeza de que, se o fizer, a mãe cairá de costas. Nenhuma dessas condutas resiste a um escrutínio lógico; todas, porém, prosperam porque oferecem aquilo que a razão fria frequentemente não dá: a ilusão de controle sobre o imprevisível. A vida moderna, com sua sobrecarga de escolhas e sua opacidade sistêmica, revela-se um viveiro de pequenos rituais mágicos, desde o horóscopo consultado antes da reunião até o aplicativo que “dá sorte” na tela de bloqueio.

Todavia, se no âmbito privado o pensamento mágico costuma ser uma muleta inofensiva, na esfera pública ele se transmuda em ferramenta de poder. Os atores políticos, esses artesãos da palavra, perceberam há muito que a promessa de realização imediata de desejos, ainda que contraditórios, rende mais frutos eleitorais do que o maçante inventário de restrições orçamentárias e causalidades complexas. Assim, vê-se recorrerem a uma versão laica e operacional da magia simpática: a lei que, sancionada, supostamente extinguirá a violência sem tocar nas estruturas que a geram; o imposto único que, magicamente, aplainará as desigualdades; o discurso inflamado que toma a nomeação do inimigo como equivalente à sua derrota. “Basta querer”, dizem. “Com vontade política, resolve-se.” Frases que, transportadas para a medicina, equivaleriam a prescrever água benta contra uma fratura exposta.

Exemplo menor, porém, paradigmático, ocorre em toda crise de abastecimento: o governante que aparece na televisão esfregando as mãos e anunciando que “determinou” o fim do desabastecimento, como se a realidade obedecesse a decretos, como se o pensamento, por ser pronunciado de um púlpito com brasão como pano de fundo, tivesse o poder de transmutar escassez em abundância. Ou então o político que, diante de um indicador econômico adverso, rebatiza a inflação de “ajuste” e o desemprego de “flexibilização”. Não se trata aqui de cinismo calculado, ao menos não apenas, antes, trata-se da interiorização do pensamento mágico como método de governo: se denominar a catástrofe de transição, ela se tornará transitória; se repetir “somos resilientes” cem vezes, a resiliência brotará dos escombros.

O cotidiano do cidadão brasileiro, aliás, espelha essa pedagogia da irrealidade. Cresce-se cercado por anúncios que prometem “o corpo dos sonhos em trinta dias” sem déficit calórico; por manuais de autoajuda que juram que o pensamento positivo atrai fortuna; por líderes religiosos que vinculam o êxito financeiro à fé; tudo variações do mesmo tema: a negação da mediação causal em favor da realização por contiguidade simbólica. Quando o eleitor, já imerso nesse caldo cultural, ouve um candidato dizer que “é só querer” para que a violência acabe, a economia decole ou a corrupção desapareça, não estranha. Por certo, reconhece ali a estrutura familiar do pensamento mágico, aquela mesma que aplica ao amuleto do retrovisor.

O perigo, note-se, não reside na crença isolada, mora na sua institucionalização. Um presidente que governa pelo pensamento mágico não monta equipes técnicas, monta rituais de marketing. Não estuda indicadores, estuda narrativas. Não enfrenta contradições, dissolve-as em slogans. Aí o preço, que no indivíduo era um mero “atrito cognitivo”, torna-se coletivo e concreto: hospitais sem insumos, escolas sem merenda, pontes que caem. A magia, se falha, não admite responsabilização, porque nunca prometeu causas, prometeu apenas desejos. O desejo, ao contrário do contrato, não pode ser cobrado em juízo.

Aristóteles, invocado há pouco, tinha razão: o exemplo arrasta. Contudo, arrasta para o abismo quando se confunde a força da exemplaridade com a eficácia do encantamento. É extremamente necessário, pois, distinguir o pensamento que compreende o mundo para transformá-lo, lento, trabalhoso, ingrato, do pensamento que apenas o nomeia para aplacar a própria angústia. A política, a boa política (se ainda existe), é filha do primeiro. O populismo, a demagogia, o voluntarismo estéril: esses são netos bastardos do segundo. Enquanto se acreditar que decretar é criar, que batizar é resolver, que repetir é fazer acontecer, a sociedade estará governada por feiticeiros de araque, pagando, no cotidiano, o preço de um delírio compartilhado.

*Thiago Barbosa Soares é analista do discurso, escritor e professor da Universidade Federal do Tocantins (UFT).