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Opinião

Thiago Barbosa Soares é analista do discurso, escritor e professor da UFT.

Thiago Barbosa Soares é analista do discurso, escritor e professor da UFT. Foto: Divulgação

Foto: Divulgação Thiago Barbosa Soares é analista do discurso, escritor e professor da UFT. Thiago Barbosa Soares é analista do discurso, escritor e professor da UFT.

Vive-se hoje cercado por imagens, signos e narrativas que parecem mais intensos, mais sedutores e mais convincentes do que a própria realidade. Para Jean Baudrillard, filósofo francês, essa não é apenas uma característica da modernidade, é sua condição estrutural. Em sua teoria do simulacro, ele sustenta que já não se lida com representações do real, mas com simulações que substituíram o próprio real. Não se trata apenas de uma crítica cultural, mas de um diagnóstico radical do tempo contemporâneo.

Tradicionalmente, uma imagem representava algo. Um retrato remetia a uma pessoa, um mapa a um território, uma notícia a um fato. Segundo Baudrillard, porém, a sociedade atravessou diferentes estágios de representação até alcançar o simulacro puro: signos que não representam nada além de outros signos. É o que ele denomina hiper-realidade, um mundo em que a distinção entre o real e sua representação se dissolve.

As redes sociais oferecem um exemplo eloquente. Nelas, não se vê a vida como ela é, mas versões cuidadosamente editadas, filtradas e performadas. Ainda assim, essas versões passam a orientar comportamentos, desejos e expectativas. A imagem deixa de imitar a realidade e passa a moldá-la. O “corpo ideal” difundido no Instagram influencia cirurgias, dietas e a própria autoestima. A experiência já não precede a imagem; é a imagem que passa a ditar a experiência.

Baudrillard também analisa fenômenos como a televisão, a publicidade e a guerra transmitida ao vivo. Quando um conflito é apresentado como espetáculo midiático, com gráficos, trilhas sonoras e narrativas simplificadas, torna-se um evento consumível. A guerra, nesse sentido, não é travada apenas no campo de batalha, antes, é no campo simbólico. O que importa não é somente o que acontece, mas como é mostrado, e, muitas vezes, a versão midiática torna-se mais “real” para o público do que os próprios acontecimentos (o famoso fato).

Há quem acuse Baudrillard de exagero ou pessimismo. Afinal, fatos, corpos e eventos concretos continuam a existir. No entanto, sua provocação permanece pertinente: até que ponto a percepção do mundo é mediada por sistemas de signos que já não apontam para nenhuma base sólida? Em tempos de deepfakes, inteligência artificial generativa e desinformação digital, a fronteira entre o autêntico e o fabricado torna-se cada vez mais difusa.

O simulacro não deve ser entendido como mera falsificação; trata-se de uma realidade autônoma e autorreferente. Disneyland, exemplo clássico utilizado por Baudrillard, não serviria apenas para entreter, mas para reforçar a ilusão de que o restante da sociedade é “real”, quando todo o sistema social já opera segundo a lógica da encenação. O parque seria apenas a caricatura explícita de um mecanismo que permeia toda a cultura contemporânea.

A teoria do simulacro pode ser interpretada não como uma sentença fatalista, mas como um alerta crítico. Ao reconhecer que se vive imerso em simulações, torna-se possível desenvolver uma postura mais reflexiva diante das imagens e discursos consumidos cotidianamente. O risco não está na existência de representações, que sempre acompanharam a humanidade, está na perda da consciência de que são construções.

Baudrillard convida à desconfiança em relação à aparente transparência do mundo. Talvez não seja possível escapar completamente da hiper-realidade, mas é possível cultivar uma atitude crítica diante dela. Em vez de aceitar passivamente os signos que circulam na sociedade, impõe-se a tarefa de interrogá-los: o que representam? A quem servem? Que interesses ocultam?

Assim, o simulacro não se apresenta apenas como conceito abstrato, mas como espelho inquietante da condição contemporânea. E talvez o primeiro passo para recuperar algum senso de realidade consista em reconhecer que ela já não se mostra tão evidente quanto se supunha.

*Thiago Barbosa Soares é analista do discurso, escritor e professor da Universidade Federal do Tocantins (UFT).