No próximo dia 18 de maio, às 16h, a cidade de Palmas (TO) será palco de um ato público na Praça dos Girassóis (próximo ao Monumento aos 18 do Forte), em alusão ao Dia Nacional da Luta Antimanicomial. A mobilização integra uma agenda nacional e ocorre simultaneamente em diversos municípios. No Tocantins algumas cidades se destacam na Luta Antimanicomial, como: Araguaína, Gurupi, Miracema, Colinas, Paraíso do Tocantins, Dianópolis, Formoso do Araguaia, Sítio Novo, São Miguel do Tocantins, Axixá, Maurilândia e Itaguatins.
Mais do que uma data simbólica, o 18 de maio representa um marco histórico de resistência. A origem remete ao Encontro dos Trabalhadores da Saúde Mental, realizado em 1987, na cidade de Bauru, que impulsionou a luta por uma transformação profunda no modelo de atenção à saúde mental no Brasil. Desde então, o movimento antimanicomial denuncia violações de direitos e afirma a construção de um cuidado em liberdade, baseado na dignidade, na cidadania e nos direitos humanos.
Essa trajetória está diretamente ligada à consolidação do Sistema Único de Saúde e à Reforma Psiquiátrica brasileira, que, por meio da Lei nº 10.216/2001, redirecionou o cuidado para uma rede comunitária, territorial e aberta, rompendo com a lógica de isolamento e exclusão dos manicômios.
É nesse contexto que se reconhece o papel histórico dos profissionais de enfermagem, protagonistas na linha de frente da transformação do cuidado em saúde mental. No cotidiano dos serviços, esses trabalhadores contribuíram para superar práticas excludentes e construir relações baseadas no acolhimento, na escuta e no respeito à singularidade dos usuários.
Em Palmas, o ato será promovido por uma ampla articulação entre entidades públicas, sociedade civil, instituições de ensino e usuários dos serviços de saúde mental, incluindo CAPS, Ulbra, Unitins, Unitop, Unicatólica, UFT, Uninassau, conselhos de direitos, sindicatos, centros acadêmicos e trabalhadores da saúde. A proposta é clara: dar voz a quem historicamente foi silenciado.
O ato será um espaço de escuta, denúncia e mobilização social. Usuários poderão compartilhar experiências, evidenciar dificuldades no acesso ao cuidado e denunciar violações ainda presentes no cotidiano. Ao mesmo tempo, a mobilização reafirma a defesa de um atendimento público que seja, de fato, digno, efetivo e inclusivo.
Os cartazes serão uma marca central da mobilização. Com mensagens como “Manicômio nunca mais”, “Trancar não é tratar”, “Cuidar em liberdade”, eles dão visibilidade à luta, denunciam o estigma e afirmam uma nova forma de compreender o sofrimento mental — não como motivo de exclusão, mas como condição humana que exige cuidado e respeito.
Psicofobia
O ato também se coloca como um espaço de debate público sobre a realidade da saúde mental no Tocantins. Estarão em pauta os avanços da Reforma Psiquiátrica, mas também desafios urgentes, como a ampliação dos serviços, o fortalecimento da rede de atenção psicossocial, em especial as práticas de cuidado em saúde mental na Atenção Primária à Saúde (APS) nos territórios e a necessidade de respostas concretas para populações em situação de vulnerabilidade.
Um dado incontornável revela a dimensão do problema. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, cerca de 1 bilhão de pessoas vivem com transtornos mentais no mundo. No Brasil, estima-se que aproximadamente 70 milhões de pessoas enfrentam algum tipo de sofrimento psíquico. O Ministério da Saúde aponta que cerca de 23 milhões de brasileiros convivem com depressão, enquanto o país registra quase 19 milhões de casos de ansiedade. Esses números evidenciam uma crise social e sanitária que exige respostas estruturais, contínuas e humanizadas.
Um dos grandes desafios da saúde mental no Tocantins é a crescente discrepância entre a demanda por cuidado psicossocial e a capacidade efetiva da rede pública de atendimento. Dados da Secretaria de Estado da Saúde indicam que os atendimentos realizados nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) cresceram 40,2% somente em 2025, o que escancara a insuficiência da rede de proteção social e de políticas públicas efetivas. Trata-se de uma população profundamente vulnerabilizada, marcada por múltiplas violações, entre elas o sofrimento mental, o estigma e o abandono.
Diante desse cenário, a mobilização também reforça o combate à psicofobia — o preconceito contra pessoas em sofrimento psíquico — reconhecendo que o estigma e a discriminação não apenas ferem direitos, mas agravam o sofrimento e afastam milhares de pessoas do cuidado.
Enfrentar a exclusão não é uma escolha — é uma responsabilidade coletiva que exige compromisso político, investimento público e a construção de uma rede de cuidado que não exclua, não silencie e não abandone.
Como marco político do evento, será proposta a criação de um Coletivo de Luta Antimanicomial de Palmas, um novo movimento social que atuará de forma permanente na defesa dos direitos das pessoas em sofrimento mental. O coletivo terá o papel unificar a luta no Tocantins e promover reuniões periódicas e atuará no fortalecimento da participação social, na humanização do cuidado, no apoio aos CAPS e no combate à psicofobia.
Mais do que um ato, o 18 de maio reafirma um compromisso coletivo: o de construir uma sociedade sem manicômios — não apenas no sentido físico, mas também no modo como se pensa, se fala e se trata a diferença.

